Sobre coisas de bebedeira ...
- luisdiariosegundo
- 18 de set. de 2025
- 3 min de leitura

Havia saído de casa com a missão bem clara e definida em sua mente : divertir-se sem exageros.
Foi encontrado as 3 da matina, a 2 quadras da rua de sua casa bêbado e nu, cantarolando “ lá cucaracha” enquanto tentava chamar um taxi para ir embora.
O que havia dado errado? As más companhias. Bem, no caso, as boas companhias.
Eram o quarteto errante da cidade: Mateus , Marcos , Lucas e Madalena .
Apelidados de os 4 anjos do apocalipse, figuras marcantes em Sant’Ávila dos Burgos, subdistrito de Segóvia da Mata.
Depois de passarem a vergonha anterior comprometeram-se em nunca mais ( ênfase em “ nunca “ ) se comportarem daquela maneira. Ainda se via em alguns lugares paredes pichadas com os dizeres “ abaicho a burguesia “ (com CH mesmo) ao lado de tentativas de desenho de uma caveira pirata.
Denunciados anonimamente pelos moradores locais, a polícia nem se deu ao luxo de sair de madrugada para realizar a busca aos meliantes: no dia seguinte tranquilamente foram busca-los em suas próprias casas, de tão conhecidos que eram pelas estrepolias que aprontavam.
A noite começou bem, com a ida dos amigos até a igreja do bairro do Morro para confessarem seus pecados ao então amigo de infância padre Henrique de Colossos – outro incorrigível - que há pouco tempo fora ordenado pároco e enviado para ali onde Judas perdeu as botas.
Até tentaram entrar na igreja, mas na porta alta de madeira trabalhada estava um papel colado com os dizeres “ Hoje grande quermesse no pátio da rua do mercado”.
Impedidos de começar bem aquela noite, dirigiram-se esfuziantemente para o referido local, parando antes na venda do seu Ernesto para verificar se algum de seus amigos errantes por lá se encontrava. Foi aí que começou a dar errado ...
Um pedaço de linguiça e um ovo colorido marcaram o início da bebedeira.
Lógico, tem que ter um tira-gosto para acompanhar.
Beber com a barriga vazia pode causar um problema no “estrombago” e afinal, um golezinho só não faz mal ...
Madalena até tentou resistir. Deu várias justificativas e até trouxe a lembrança da jura que haviam feito, e mesmo o fato de estar vestida de anjo para seguir a procissão não foram suficientes para evitar a primeira das muitas talagadas que vieram depois .
Marcos só bebia rabo de galo ( uma mistura de cachaça e vermute ) e a cada gole dizia ser a saideira.
Lucas nem se fez de rogado, depois de 2 caipirinhas de vodca e 3 cervejas já começou a falar enrolado, discursando sobre o proletariado que era esmagado pela sociedade burguesa, já convocando uma greve geral com início imediato.
Mateus não se conteve.
A frase que mais pronunciou depois que vomitou nas asas do anjo foi “ a próxima rodada é por minha conta “ erguendo o copo e brindando aos cachaceiros locais, que riam incontrolavelmente enquanto davam tapinhas em suas costas.
Entre a venda do seu Ernesto e o pátio da rua do mercado haviam ainda mais 3 botecos , destes com paredes amareladas e iluminação com lampião a gás, prateleiras com vários tipos de garrafas de bebida pela metade e rolhas frouxas a tampa-las.
A cada gole tomado tudo era devidamente marcado na caderneta para ser acertados depois, no fim do mês.
Bem verdade é que o vendeiro marcava sempre umas doses a mais do que realmente fora bebido, mas ninguém ali tinha condições de conferir mais nada.
Em volta de uma mesa de bilhar estavam os 3 amigos inseparáveis, cigarro no canto da boca, tentando passar o giz azul na ponta do taco em que se seguravam para não cair.
Madalena desinibida que estava pelos gorós que tomara, jazia inerte caída segurando os pés de um banquinho, a maquiagem dos olhos toda escorrida e os cabelos desgrenhados, mais parecendo um arremedo de anjo expulso do paraíso.
Marcos, Lucas e Madalena foram carregados para suas respectivas casas, embora abaixo de protestos alegando que “ a noite ainda é uma criança “ .
Mateus terminou a noite caído na calçada, esperando o taxi que não vinha, da maneira que a história começou ...
Kkkk vida de bêbado é difícil...