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Sobre coisas de café da manhã

  • luisdiariosegundo
  • 18 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Acordara sentindo o cheiro de café coado naquele instante.

Tinha um cheiro forte , verdadeiro , de café plantado , colhido e torrado ali mesmo na fazenda .

Lembra da preta de corpo pesado com um lenço amarrado na cabeça ,  chinelo de juta e avental branquinho quarado no varal que ficava no quintal dos fundos  , junto com as roupas que lavara na beira do rio no dia anterior .

Ainda com os olhos remelentos sentava-se no rabo do fogão a lenha e mexia inquietamente nos cavacos de pau , fazendo o fogo crepitar e soltar fagulhas pelo ar .

— “ Não mexe aí menino ! a comida fica com gosto de fumaça !  “ .

  Logo de manhã era uma correria : as mucamas correndo pra lá e pra cá  dando de encontros e se batendo o todo tempo , como se nunca tivessem feito aquela tarefa ; o castigo poderia ser doído caso saísse alguma coisa errada ou acontecesse algo fora do planejado .

A mesa da cozinha feita de madeira de Pau rosa estava sempre uma perfeição : toalha de mesa bordada comprada do seu Jacob ( um caixeiro viajante que sempre aparecia por ali com novidades ) , pratos e xicaras importados “ das europa “ com desenhos azuis e outros florais estampados no fundo , pesados talheres de prata  devidamente polidos , pães que Dona Jurema fazia diariamente ( nunca amanhecidos ) e frutas  das mais variadas colhidas do pomar dali mesmo .

Podia chegar quem quer que fosse e sentar-se primeiro à mesa , mas ninguém pegava um nada sem que o coronel já estivesse devidamente assentado à cabeceira e com seu guardanapo estendido no colo .

Era o primeiro a ser servido e também ninguém se retirava antes dele ou sem sua permissão .

O filho mais velho sentava-se ao seu lado ( esquerdo ou direito tanto fazia ) ; rapaz bonito com um bigode ralo a crescer e o cabelo sempre escovado a brilhantina .

Falavam do gado , da mata a ser derrubada , dos cavalos que comprariam e cochichavam bem baixinho sobre quando iriam visitar a casa das “ muié dama “ .

Os dois cachorros labradores ficavam deitados dormido ao seu lado , aguardando um afago e um pedaço do bolo de laranja ( que nunca faltava ) . Eram “ Lambe cinza e Rodopio “ ; o primeiro com manchas acinzentadas pelo corpo e o segundo que nunca se deitava sem antes dar ao menos três ou quatro voltas no tapete .

O tempo gasto no café da manhã era sempre incerto : as vezes durava mais de hora e outras vezes era tão rápido que nem valia a pena todo aquele trabalho de arrumação e espera .

Pela porta alta e dupla da entrada principal  entravam os amigos que aguardavam na saleta ao lado : Dr. Emanuel da farmácia , Dr. Honório do cartório e Dr. Ezequiel Dantas dono do jornal local .

Sempre as mesmas figuras que vinham “ pedir a benção “ e trazer as notícias da cidade . Até detalhes de confissão feitas no segredo do confessionário ao padre Zezinho eles sabiam contar .

Mas nunca eram convidados a mesa : — “ O café da manhã é coisa só da família . quem quiser que espere “ dizia o coronel .

Depois que todos saiam da cozinha era a vez dos empregados que , aliviados da pressão sofrida , podiam então beliscar as sobras das guloseimas e até beber do café , mas em suas canecas de alumínio que ficavam na prateleira do armário .

Dependuradas acima do varal do fogão de lenha ficavam  juntas as linguiças e pedaços de carne de caça , devidamente sendo defumadas para o almoço dos empregados .

Não fosse ele tão novinho ( mal saído e ainda cheirando a cueiro como dizia todo mundo ) , jamais seria perdoado por ficar ali aos pés da Sinhá também aguardando um pedaço de queijo e quem sabe um pedaço da goiabada da lata .

Mal sabia Ele que dali a alguns anos , seria o braço direito do coronelinho e capataz das 2 fazendas .

Só ainda não faria parte da mesa do café da manhã ...

 
 
 

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