Sobre coisas de envelhecer ...
- luisdiariosegundo
- 18 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 17 de abr.

Os dedos pequeninos tocam delicadamente os vincos no rosto da bisavó.
Os olhinhos muito atentos quase não se mexiam, como se assim pudessem absorver os segredos por detrás daquela pede toda quebrada .
Pareciam a rua de terra batida da casa onde morava com sua família, quando chovia forte e se formavam aquelas valetas que faziam a criançada cair quando estavam a brincar de pega-pega, e os adultos escorregarem para em seguida caírem de bunda no barro vermelho.
O tempo ia passando e as pessoas se acostumando com a situação da rua.
Talvez fosse assim também com as pessoas mais velhas que se acostumavam a sua aparência.
— Dói? – perguntava enquanto alisava o rosto craquelado da velha senhora.
— As vezes dói sim ...
— E quando dói? – insistia na pergunta.
Em sua mente inocente queria saber se a dor era aquela de quando batia com o dedão na beira da cama, ou como aquela dor de dente cariado por causa dos doces todos que comia ...
Segundo sua mãe e a dentista, era por causa de não escovar os dentes depois de comer.
Não conhecia outras dores.
A velha senhora dá um suspiro enquanto olha com um sorriso para aquele rostinho cor de rosa e pele macia, enquanto imagina as surpresas que a vida lhe reservara.
—Dói as vezes, mas é uma dor diferente.
— Diferente como?
Sabe quando a criança começa aquela fase de ficar perguntando porquê?
—Então ... começou a responder já percebendo que não se livraria tão facilmente do interrogatório.
Como explicar as dores que não são de osso quebrado, que não passam com comprimidos, com chazinhos de erva doce ou com a massagem na barriga que a mãe da gente faz ?
— Só dói quando você não vem aqui na casa da vovó.
Talvez com esta resposta conseguisse disfarçar e mudar o rumo da conversa.
Até porque, pensando bem, tinha um fundinho de razão.
Depois da morte do marido ficara muito borocoxô, quase não saia de casa nem mesmo para visitar os filhos.
Filhos... gostaria de poder pega-los no colo como quando eram pequenos, comprar-lhes sorvetes e de ficar a admira-los enquanto dormiam.
As amigas sempre ligavam convidando-a para um café da tarde, uma volta no shopping, viagens e idas ao teatro, mas não conseguia preencher o vazio que ficara.
Ha sim, o vazio também dói.
Mas de uma forma inesperada a presença das crianças conseguia fazer com que se esquecesse da falta, as brincadeiras de carrinho e boneca e o simples som hora cochichado e delicado e hora gritado de “ vovó ! “ traziam de volta o seu melhor.
Outro dia se lembrou de como fazia brinquedo com carretel de linha, um palito e elásticos.
Até comprou uma vaquinha que fica em cima de um barril, e que quando apertamos a parte de baixo ela se movimenta de várias maneiras; até os seus filhos se lembraram e brincaram.
Conseguia fazer as crianças saírem da frente da televisão e abandonar os joguinhos dos celulares.
Isso por si só já era uma benção, mas não duravam muito tempo: as costas doíam (e dor de verdade !) a ponto de ter que se deitar e que no final acabavam em um cochilo no meio da tarde.
Percebe que havia “se desligado”, estivera perdida em seus pensamentos e a criança já estava entretida com outras coisas.
Corria com os primos de um lado para o outro enchendo o ambiente com gritinhos alegres, suarentos e com um colarinho marrom em volta do pescoço.
As rugas não doem.
Dói mesmo é a alma todas as vezes quando vão embora ...
É verdade se a gente não tomar cuidado ..velhice dói mesmo.