Sobre coisas de esperar ...
- luisdiariosegundo
- 15 de jun. de 2025
- 3 min de leitura
_ " Filho , estamos sentados aqui te esperando " .
Nada como o tempo para aprendermos algumas coisas ... Eu lembro que quase sempre me sentia autossuficiente , me bastava a mim mesmo .
Dirigia a minha vida quase como eu queria .
Meu pai sempre muito bravo exerceu seu poder sobre mim e isso era um grande impedimento as minhas loucuras ( que eu logicamente achava estarem mais de que certas ) .
Minha mãe era o ponto de reconciliação e equilíbrio das coisas lá em casa , sempre pondo panos quentes e quase todo dia era um nó a desatar . Mãe já veio de fábrica com todos estes dons maravilhosos ( de cozinhar a liderar , de bater e assoprar ) , que Eu nunca reconheci em meus dias de " gente crescente " e que não se lembra de outro rosto que não seja este do momento.
Força física não nos faltava , estávamos no auge , subir ou descer não fazia diferença . Carregar peso ? tranquilo . Andar longe ? moleza !
Nossa cidade tinha meros 61 mil habitantes em 1970 quando o Brasil foi campeão ( lembra da música ? : 90 milhões em ação pra frente Brasil , do meu coração... " ) . Todo mundo conhecia todo mundo .
Eu aos 7 anos seguia pelas ruas vendo meus pais que pareciam os donos da cidade de tanta gente que eles cumprimentavam .
O tempo passou lentamente até meus 17 anos . No dia seguinte aos 18 seguiu-se a novela : Primeira habilitação , primeiro carro , primeira moto , exército , bailes , piscina do clube , viagens ao litoral , dormir fora de casa ... e aí nos damos conta que o acelerador travou lá embaixo no fundo do assoalho .
Assombrosamente lembro vagamente e ao mesmo tempo profundamente dos 19 , 20 , 21 ... se não fossem algumas fotografias pensaria que estes anos nem existiram . Rápido demais .
Trabalhamos a todo vapor , precisamos construir , ter , produzir e reproduzir.
Dirigir já não é prazer , é necessário . Bailes ? só se for o rebolar do cansaço .
Piscina até tem em casa mesmo , mas usa-la já é outra história . Viagens ? vez ou outra um bate-volta até ali pertinho mesmo .
É como a vida se apresenta ...
Mas outros mais sortudos já estão adiantados neste processo , chamados de " aposentados ". Há , os sortudos ! chegaram naquele sonho tão desejado : Tirar o relógio do pulso e não ter mais horário para nada , ser dono e ter as rédeas da vida nas mãos . Tempo de aproveitar os anos que tem pela frente da forma mais intensa ... e mais calma possível .
Agora o tempo desacelera . Tudo se passa mais lentamente , incríveis " nada pra fazer " são a nova normalidade .
A cidade agora tem quase 300 mil habitantes , quase ninguém se conhece , alguns amigos já não estão mais presentes , os cabelos antes pretos e vigorosos agora estão brancos ou até em falta em alguns .
O vigor das caminhadas longínquas se transformam em penosas pequenas caminhadas , passamos a conhecer e até receitar alguns remédios , estranhamos a nova disposição das ruas e prédios da cidade que já não é mais aquela que crescemos ...
Agora passamos de filhos a pais de nossos pais . Usamos os carros para leva-los aos médicos , as festas de família , aos almoços no dia dos Pais , enquanto esperamos pela nossa libertadora aposentadoria !
Enfim ela chega . Agora vai !! É a minha vez !!
Só que as condições contratuais mudaram .
Vieram no pacote uma dorzinha no joelho e outra bem ali onde as costas mudam de nome . Já não dá para caminhar muito , não se pode esquecer de levar as caixinhas de remédio e tem muitas paradas não programadas pelo caminho .
Descansar é necessário .
Meus pais outrora tão vigorosos já tem a nova estratégia : quando estão cansados param em um lugar já determinado e ligam para Eu dizendo assim :
-" Filho , estamos sentados aqui te esperando " .
Deixo de lado o que estiver fazendo e vou busca-los . E sabe o que mais mudou ?
Agora sou Eu quem me sento naquele mesmo lugar a descansar , a recuperar o folego enquanto as dores passam .

Talvez alguém venha me buscar ...
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