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Sobre coisas de feira livre ...

  • luisdiariosegundo
  • 22 de jun. de 2025
  • 4 min de leitura

A mesma feira livre na mesma rua a mais de 50 anos !

     No início era feita em 5 quarteirões , as 4 da manhã já havia barulhos dos feirantes descarregando seus caminhões , rurais ou peruas kombi .

      A montagem das barracas era um espetáculo a parte , tinha as de 1 tabuleiro ( dos mais simplórios ) e até as de 20 tabuleiros ( dos mais abastados ) , a maioria também era ornada com cobertura de lona , barrados presos com pequenos ganchos , balanças de bancada e aquelas que a gente segura na mão .

    Descarregar todas as parafernálias e levar até o local certo de cada um , rendia conversas animadas entre “ bom dia “  e “ viu o jogo ontem ?” , os donos das bancas dando as instruções sobre qual fruta ou legume iria primeiro , as bandejas já preparadas com a dúzia de laranja lima ou pêra , mexerica poncã e tangerinas .

Havia a banca de ovos . Ovos de codorna , ovos caipira , ovos pequenos , médios e até os jumbos ( até imagino que as galinhas deviam ser as maiores no galinheiro ) . Também sempre estava presente a bandeja com os ovos meio quebradinhos , que eram mais baratos que os demais .

     Bem no meio da feira estrategicamente ficava a barraca dos doces ... a criançada segurando na barra da saia das mães ou de mãos dados com os pais dizendo “ eu quero “ ou “ compra  pra mim ? “ e as respostas eram sempre as mesmas :

_ Na volta a gente compra – coisa que quase nunca acontecia , e assim meninos e meninas desejosos eram engambelados e ficavam sem seus queridos açúcares .

       Nas bancas de banana dava até confusão . Entre prata , nanica , maçã , ouro e terra , de vez em quando apareciam as Figo , Pacovan , São-Tomé e a Banana Vermelha . Eram vendidas as dúzias , não por peso como agora .

      A barraca mais bonita sempre era a das flores que entre outras coisas vendia mudinhas de vários tipos de chá : Camomila , erva-cidreira , hortelã , boldo  e erva-mate em maços prontos para ir ao fogão ferver em uma canequinha de alumínio.

       As rosas sem espinho eram enroladas em jornal para não ferir as mãos dos clientes , flores do campo , astromélias , gérberas e até alguns girassóis apareciam mesmo que fora de época ( segredos dos cultivadores ) .

            Entre os eles ( feirantes ) rolava uma certa disputa onde cada qual queria atrair os compradores para a sua banca , gritavam fazendo suas propagandas :

— “ Moça bonita não paga ... mas também não leva “  , “ olha aí , olha aí freguesia “ , “  verdura fresquinha direto da horta “  , “ leve 2 e pague 1 “ , “ experimenta , a fruta tá docinha “ , “ não perca tempo , senão acaba “ , “ não vai encontrar mais barato que aqui “  eram as mais ouvidas .

       Bem no início da feira uma banca chamava a atenção : era onde se encontravam todos os tipos de penduricalhos : tampas de panela , bucha vegetal pra tomar banho , cadarços os mais variados , reguladores de pressão de botijão de gás , sandálias havaianas e outras de couro ( que davam o maior chulé ) , tampinhas de ralo de pia , desentupidores , prendedores de varal , bijuterias , acessórios para cabelo , meias , chapéus e brinquedos : tudo ali , facinho , na mão !

       A barraca do peixe nem tão movimentada assim era  a última ( acho que devido ao cheiro )  o pessoal raspando as escamas e limpando a “ barrigada “ , cação e sardinha eram os mais vendidos .

O que se via era um desfile de carrinhos cheios sendo puxados pelos vizinhos e conhecidos de outras ruas , alguns moleques contratados por alguns trocados para levar as compras até a casa . Fazer a feira era coisa pra mais de 1 hora , de tanto que paravam para conversar e tirar o atraso das fofocas .

Todos se conheciam ou eram devidamente apresentados:

— Conhece ? é a filha da dona Lourdes , vizinha da tia do Gustavo , que comprou aquele carro amarelo , lembra ?

       Com o passar dos anos e com o aparecimento dos hipermercados as feiras foram encolhendo cada vez mais .

       Agora de tudo é vendido nestes locais , embalados em sacos plásticos sem personalidade , por vendedores que não conhecem os clientes , filas enormes se formando na frente dos caixas e pagamentos com cartão ou pelo celular com qrcode .

      Agora os produtos são anunciados em alto falantes  indicando as promoções do dia , em cada corredor alguém dando a experimentar seus produtos ( mas sem falatório alto ) , e preços que podem ser consultados em terminais eletrônicos .

    É o início do fim da época de ouro , onde até poderíamos ter nos encontrado....

 
 
 

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