Sobre coisas de intelectuais ...
- luisdiariosegundo
- 22 de jun. de 2025
- 3 min de leitura

Pelo modo que se expressava queria dar a entender que era um “sujeito inteligente “ ( já que não conhecia a palavra intelectual ).
Citava ditados populares sempre misturando os enredos com uma desfaçatez de causar embaraço para os ouvintes, que já há muito haviam desistido de compreende-lo.
Embalado por um ódio crescente ante os políticos oficiais, destes com partido e tudo mais, continuava em tom inquisidor em questões pífias como o sexo dos anjos ou a pluralidade dos melhores tipos de batatas para se fazer nhoque.
Por mais que se lhe provassem por A mais B que o referido primeiro baterista dos Beatles não fora Ringo Star, ou até mesmo que a Área 51 não tinha nada a ver com a fábrica da referida cachaça, insistia em estar certo de que o foguete americano deveria ter pousado no lado claro da lua cheia (que era para a gente poder ver e confirmar a façanha).
Durante muito tempo insistia-se que se desse ao trabalho de ler “as histórias inventadas“ - como ele se referia.
– “Estão aí grandes escritores que podem abrir a sua mente “, mas o último livro que abrira fora um bem surrado e de terceira mão sobre o grito do Ipiranga, leitura obrigatória até a 5ª série, máximo que chegara na escolinha publica da cidade de Canga Caída -RN, lá pelos idos de 1973.
Não que fosse analfabeto total, pois durante a vida sua mãe e irmãs lhe escreviam cartas dizendo das saudades que sentiam, e vez por outra até ameaçavam vir a seu encontro aqui em São Paulo para ter com o filho e irmão importante.
Só pelo fato de haver saído daquele lugar onde “Judas perdeu as bostas” (segundo seu ditado popular) já era famoso e possível candidato a prefeito entre os Cangacaidences quando da sua volta ao lar.
Dizia-se até que voltaria doutor em alguma coisa.
Fato é que, de tanta insistência, resolvera “ passar os zóio “ em um livro e escolhera aleatoriamente um de capa bonita e de nome Grande sertão: Veredas, de um tal de Guimarães Rosa.
Se era sobre sertão, ele com certeza entenderia.
Imaginei que seus dedos iriam pegar fogo assim que tocassem as páginas do livro sagrado tal como Drácula a se expor ao sol, ante a heresia de imaginar que sequer iria passar da quarta página.
Durante um bom tempo sentava-se em um banco da praça da República e parecia estar absorto entre as páginas, alheio aos comentários ácidos sobre seu fingimento de leitura, ignorando até mesmo as belas amigas prostitutas que por vezes insistiam em sentar em seu colo oferecendo-lhe seus préstimos a troco de alguns trocados.
A esta altura já assumia ares de intelectual com seus óculos de leitura apoiados na pontinha do nariz, a perna cruzada joelho sobre joelho, as costas em uma posição ereta que não lhe era natural, e lá se via o livro aberto para bem mais da metade, quase no final.
Até que sumiu por vários dias.
Ninguém sabia de seu paradeiro. Julgava-se que teria desistido de aparecer e de parecer tão esperto como sempre, até mesmo por saber que seria alvo das chacotas intermináveis de seus conhecidos.
Esperava-se que tentasse ler alguns gibis da turma da Monica, talvez algumas tirinhas de jornal ou até mesmo alguns livros infantis de Monteiro Lobato (que julgavam ser um avanço imensurável para tal pessoa) e aguardavam seu reaparecimento para tripudiar sobre sua alma ante a pretensão de ler sobre o dificílimo Guimarães.
Reapareceu meses depois, calça branca e terno de linho amassado, com botões de osso rajado de quatro furos, sapatos de duas cores engraxados e novo óculos redondos de metal dourado; trazia debaixo do braço um calhamaço cheio de visíveis anotações dizendo estar apressado e sem tempo para dialogar, pronunciando as palavras em uma cadência digna de orador oficial de formandos em filosofia.
Havia sim queimado os dedos e contaminado fora no momento em que passara do prólogo, com o veneno da tinta impressa nas folhas da sabedoria ...
- Ora pois tenho pressa: Os Lusíadas me aguardam!
Foram suas últimas palavras para aquela plateia boquiaberta.
Aos interessados, ele pode ser encontrado em seu gabinete em Canga Caída ...
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