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Sobre coisas de lobisomem moderno ...

  • luisdiariosegundo
  • 18 de set. de 2025
  • 4 min de leitura

Esta história de lua cheia e meia noite já não cola mais há muito tempo. Bom, pelo menos desde que seu avô resolvera mudar os hábitos da família ...

Lá por volta de 1900 e bolinha ele nascera o sétimo filho homem em uma família de trabalhadores rurais, em uma cidadezinha com pouco mais de 3 mil habitantes, enfiada no alto da serra do Araribóia.

Isso já despertava uma certa inquietação, já que sempre ouviam falar que o sétimo filho, sendo homem, acaba virando lobisomem.

Famílias grandes brotavam naquela época e também era comum que os primos casassem entre si, com a aprovação dos pais, até mesmo porque era necessário que as heranças não fossem repartidas entre estranhos.

Melhor que tudo ficasse mesmo na família.

Os rapazes ao alcançar a idade de 13 ou 14 anos já tinham ânsias de bater asas, de quererem as suas liberdades, desafiando a autoridade dos mais velhos, mas sempre acabando com a cabeça baixa pois ainda dependiam dos pais.

As meninas, resolutas, contentavam-se com seus papéis mais modestos aprendendo os afazeres da casa para, um dia, “se Deus quiser”, conseguirem um bom casamento.

Com um primo bonito, de preferência.

Mas os sétimos filhos...humm... estes acabavam mesmo como as páreas.

Com a fama de virarem grandes lobos peludos de dentes caninos avantajados, acabavam ficando sempre solteiros por mais bonitos, fortes e ricos que fossem.

Triste sina que Rodolfo resolvera não ser o seu fim.

Inconformado que estava por aos 24 anos ainda não ter beijado nenhuma das primas (nem as mais feias e que visivelmente seriam as solteironas da família), resolve se mudar de mala e cuia daquele lugarzinho de gente com mente pequena e tradições as quais o relevavam a uma categoria de monstro.

Impossível continuar daquela maneira!

O auge da humilhação acontecia nas noites de lua cheia, cujas datas já estavam devidamente circuladas no calendário que ficava ao lado do retrato de São Cristóvão, junto com as folhas de arruda e a espada de São Jorge.

Naquela data marcada o pai o trancava no galpão junto com os porcos e o único cavalo puxador de arado.

Dizia o pai que era uma maneira de “não arriscar” e que a mãe permitia, muito a contra gosto, depois de  preparar uma sopa de alho com cebolas roxas, aspargos vermelhos e algumas folhas de urtiga verde, tudo recém colhido na horta que ficava prudentemente plantada aos pés de uma figueira brava.

Acontece que o menino roncava alto quando dormia e se revirava na cama feita de palha, fazendo com que os animais se assustassem e produzissem os mais variados barulhos, dando coises pelo ar e acertando as paredes de madeira do galpão fazendo o maior barulhão.

Tudo isto contribuía para aumentar os medos e sustentar a fábula medonha do lobisomem .

No dia seguinte ao amanhecer era “libertado” e por mais uns 29 dias tudo voltava a normalidade.

Cansado que estava em ser o pária da família, resolve se mudar dali para bem longe, para um lugar que não fosse conhecido e que o povo fosse menos ignorante.

E para onde fugir senão para uma cidade grande? Onde tudo e todos são  novidade e se pode iniciar uma nova história?

Nada de ficar apartado de todo mundo, dormir com animais, folhinhas marcadas e aquela maldita sopa que o deixava por dias com dores de barriga!

E queria romper com a tradição de casar com as primas e acabar herdando a mesma cama em que os avós dormiam e ficavam guardadas no sótão por anos.

Dito e feito.

Depois de se despedir dos parentes todos, no segundo dia depois da lua cheia, coloca na mala amarela os poucos pertences (1 par de calças, 2 camisas, algumas ceroulas e 3 pijamas listrados de calça curta) e se vê assustado mas resignado a mudar seu destino, na plataforma de embarque da estação ferroviária, aguardando o trem com destino a Joanópolis.

Cidade em pleno desenvolvimento com gente de mente aberta, cheia de novidades modernas, amplas áreas em que poderia se instalar e finalmente, com a benção de São Cristóvão, se arrumar na vida e ter a sua própria família!

As únicas “primas” que tinha convívio eram as da casa da luz vermelha, onde era sempre bem vindo e aclamado rei da noite (por casa do dinheiro que por lá deixava) e nunca ninguém perguntava sobre quando, como e de onde tinha vindo.

Casou-se com Luba, moça alta demais em comparação com as outras, de anca grande e seios fartos, cabelos avermelhados que pronunciava erres com sotaque exagerado.

Por ser um rapaz pouco observador só tomou consciência de seus outros seis cunhados pouco antes do casamento...

Foram morar fora da cidade, na área rural, cuidando do sítio que veio junto ao dote de sua amada esposa, que tinha o mesmo habito de marcar dias de lua cheia na folhinha e estranhamente tinha o mesmo gosto por sopa de alho e outras leguminosas ...

Uma vez por mês gostavam de dormir ao relento observando as nuvens que se moviam nas noites de lua arredondada e brilhante.

Estão a ponderar se querem ter outro filho (o sétimo para ser mais exato) e já estão até pensando em se mudar para outra cidade: há boatos de que um casal de lobos que circula pelas fazendas fazendo arruaça e assustando os moradores.

Algumas coisas na vida não devem ser repetidas ...

 

 
 
 

3 comentários

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Priscila L Coelho
13 de dez. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Gostei muito. Parabéns

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Convidado:
20 de set. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Kkkkkk intrigante.

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Convidado:
18 de set. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Kkkkk gostei

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