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Sobre coisas de mistério ...

  • luisdiariosegundo
  • 8 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

Após um cochilo um tanto agitado , levantara-se para um merecido café da tarde . 

Um copo de leite com chocolate devidamente aquecido no micro ondas , um brioche recoberto com açúcar granulado , manteiga com sal , mortadela e algumas fatias de queijo prato já dariam para matar a fome .

Do jeito que a mãe fazia ...

No caminho entre o sofá e a geladeira andou descalço mesmo , sem se preocupar em usar o par de chinelos já meio desbeiçado para o lado de dentro . “ — Pé na terra é bom de vez em quando pra descarregar as más energias “ dizia sua falecida  e santa mãe .

Pelo canto dos olhos viu uma sombra que passou correndo em direção ao fogão a lenha , que estava colocado ali do outro lado da geladeira , apresentando sinais de que há muito não era usado .

— Deve ser o gato – pensou , mas a sombra foi aumentando de tamanho o que fez descer um frio pela espinha  e o cabelo dos braços arrepiar na horinha .

Pressentiu que não era um bom sinal ...

Como ? de onde veio ? a única luz que adentrava a cozinha provinha de uma pequena janela engordurada e embaçada pelos anos de bacon e ovo frito que nenhum detergente conseguiu tirar . 

A sombra parou de crescer e se instalou firmemente no centro da cozinha  sobre o chão feito de xadrez vermelho , e aos poucos a passadeira foi sumindo dentro dela .

Levou junto o novo  par de botinas da marca Tigre que ele usava todos os dias lá na roça . Não tinham nem 2 anos ainda de uso ...

Cheio de falsa coragem conseguiu dar alguns passos para tentar enxergar dentro da sombra ,  viu seu corpo meio inclinado e seu rosto refletido de volta , cabelos desgrenhados e os olhos esbugalhados e uma expressão de incredulidade e curiosidade estampas no rosto .

Um som estridente e crescente fez-se ouvir lentamente ,  uma batida seca como se fosse a cavadeira abrindo um furo na terra marava o tempo certinho :

— Tum , tum , tum ...

Eram passos  vindo lá da profundeza , em sua direção , e quando estavam ao que parece quase ali na beirada , quase aparecendo , pararam .

O som foi ficando cada vez mais alto e penetrando em sua cabeça , a ponto de incomodar mesmo que estivesse a tapar os ouvidos com as mãos ainda sujas do trabalho do dia anterior ,  causando uma tonteira , uma zonzeira que o fez cair ajoelhado para frente , para bem pertinho da sombra  negra .

Sentia-se atraído , puxado para dentro do desconhecido , um grito abafado preso na garganta que não conseguia sair , a sensação de cair e rodar , cair e rodar , cair e rodar ...

Um baque seco e dolorido .

Tateou no escuro em busca de algo que pudesse se firmar , derrubou algo que não tinha noção direito do que se tratava , sentiu a boca seca e uma dor de cabeça pulsante rebombando do lado direito da cabeça .

Parecia quando a gente dá uma martelada com força  na cabeça do dedão e todo o sangue do corpo pulsa ali naquele mesmo lugar .

Aos poucos a força nas pernas foi voltando e se levantou quase em câmera lenta , a clareza dos olhos  voltando devagarinho e a primeira coisa que viu foi o gato ali sentado fitando-o com aqueles olhos verdes e a balançar o rabo cumprido , um ronronar calmo e despretensioso de bicho caseiro a pedir colo e comida ...

Deu uns passos em direção a cozinha e com o canto dos olhos viu a sombra que se iniciava , tudo novamente !

Com um grito assustado uma veia saltou no pescoço , tingiu  o chão de vermelho vivo , fez uma poça maior de que a sombra que agora fugia em direção oposta ...

Dizem que de vez em quando até hoje o gato e a sombra aparecem , com o som da batida crescente ali  pela hora do café da tarde , como se estivesse à procura de alguém ...

 

 
 
 

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