Sobre coisas de não morrer para sempre ...
- luisdiariosegundo
- 18 de set. de 2025
- 3 min de leitura

Sentia que não estava pronto para se despedir da vida . Seria um grande desperdício .
Já haviam se passado bem mais de 90 anos e se não fosse pela insistência do pessoal do asilo em encher o bolo de velinhas , já teria esquecido sua própria idade .
Parentes não tinha mais .
Aliás , julgava que não os tinha . Os irmãos e sobrinhos se espalharam por terras que nem sabia dizer direito o nome .
A última vez que havia ouvido “ a bênção tio “ foi quando a sobrinha pequena passou para o lado de dentro do portão no aeroporto . Depois disso nunca mais.
Não sabia dos filhos desde quando eles saíram da sua casa : —” Eles aprendem a bater asas e só sabem o caminho de volta quando é pra vir pedir dinheiro ; após isso dão uma bela cagada na cabeça da gente pra depois nunca mais ! “ .
Estivera por um bom par de anos chateado com esta situação mas aos poucos foi se esquecendo até mesmo da cara de cada um deles . E não eram poucos : Sete .
Cinco homens e duas mulheres . A esta altura já poderia ser até mais que bisavô .
Nascera ali no bairro da Vila Maria beirando o Rio Tiete e por muitas ocasiões pescou alguns lambaris e traíras ( as minhocas tirava ali mesmo da beira do barranco ) . Vinham na marmita junto ao arroz papa que a esposa fazia todos os dias .
De quando em vez um ovinho frito . Só .
Antonella ! esta sim ele ainda guarda a recordação da cor da pele , o cheiro de do perfume Alma de flores e o corpo feito violão de seresta ...
Melhor nem ficar recordando muito porque enche os olhos de água .
Perdera a conta de quanto tempo acordou as 4 horas da manhã para construir o sonho de outros . Subir aqueles prédios enormes requer muita força .
Foram meses subindo e descendo com latas na cabeça antes de poder pegar na colher e começar a assentar tijolos .
Muitas vezes ouviu os doutores dizendo que “ nesta vida só me falta escrever um livro . De resto já fiz tudo . “
Não conseguia imaginar quantas coisas ainda lhe faltavam nesta vida a ponto de só faltar o livro escrito .
Coisa de gente rica este negócio de livro .
Amigos teve poucos , mas alunos teve muitos .
Era ele quem ensinava a medida do concreto , a disposição da ferragem , onde iriam os conduites dentro da parede e a pressão certa nos chuveiros dos grã-finos . Os “ doutores engenheiros “ não faziam um rabisco sem antes lhe consultar .
Chegara a ter sua própria camionete quando trabalhou lá no estado novo onde derrubou e depois plantou muitas árvores ; insistia em dizer que deu carona para “ seu Juscelino “ quando Ele ia subir a rampa . E quem vai dizer que não ? Ele aparece no cantinho da foto desbotada do jornal da época , que guarda até hoje junto com a sua reservista .
Havia “ ido a guerra “ e de lá não trouxe coisa boa ...
Viera para ali não por desejo mas por destino mesmo .
Sina também descreveria bem a situação .
Dizem que Ele foi atropelado e ficou muto tempo em um hospital ; acordou com uma perna a menos e um braço paralisado . Disso não se lembrava direito , era tudo um borrão meio esquisito .
Ainda tinha vontade de viver . Queria sair dali e poder fumar um cigarro , tomar um gole de cachaça , comer um torresmo e nadar no mar , mas já se conformara a anos com seu destino .
Não é fácil depender “ dosotro “ .
Tinha aquela moça novinha da cara cheia de espinha que vinha quase todos os dias para ouvir as suas lorotas .
Muita coisa ele inventava na hora mesmo e a coitada ia anotando tudo :
— Já tem mais de 200 páginas anotadas . Agora vamos tirar um retrato bem bonito para a capa do seu livro ! – disse na última visita .
Estranho isso . Ele nunca havia escrito nada além do desenho de garrancho do próprio nome .
Por algum motivo começou sentir que já estava bem cansado e com uma sensação de dever cumprido , assim como quando ele entregava uma casa pronta .
Não acordou mais .
O que deixou para esta vida de outras pessoas foram os filhos , alguns pés de ipê e um livro que nunca chegou a ler ...
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