Sobre coisas de perfume
- luisdiariosegundo
- 7 de jul. de 2025
- 3 min de leitura

Sobre coisas de perfume ...
Ainda era um rapazola .
Talvez tivesse seus 15 anos ou algo próximo disso , não se sabe direito ; já sentira o desejo por perfumes que tivera o prazer de sentir o aroma , alguns cítricos , certos florais e outros amadeirados .
Dali em diante foi uma procura quase que sem parar .
Poucos foram os que encontrou e que conseguiram se impregnar em seu corpo , mas nenhum especial demais a ponto de querer senti-los por muito tempo , nenhum que tivesse se fixado em seu corpo e alma .
Dos cinco sentidos este era o que mais lhe perturbava , sentia que não estava completo , sabia por intuição que muitas floradas ainda não haviam se revelado.
Não que fosse exigente demais , até pelo contrário .
Sua busca havia sido em grandes florestas , campos abertos , clareiras próximas a cachoeiras , matas virgens e fechadas , inexploradas , mas que estavam resguardadas para outros narizes que não o seu.
Grandes girassóis de pétalas amarelo ouro , rosas vermelhas e amarelas , delicadas lavandas azuis celestes , manacás , madressilvas , jasmim ... já as sentira todas e não ... definitivamente não eram elas .
Algumas damas da noite até tentaram ocupar um lugar especial , insistiram por um bom tempo , mas nunca chegaram a embriagar nem nublar seus sentidos .
Por um certo tempo deixou de procurar .
Chegou mesmo a esquecer da busca , contentando-se com o cheiro inóspito da cidade grande , experimentou amargos sabores , o cheiro da fumaça dos caminhões , do mofo natural das coisas velhas guardas e sem uso , das flores murchas que , varridas , se acumulavam pelos cantos das sarjetas sem o brilho nem vigor de outrora .
Até que ...
Assim sem esperar , distraído que andava , cabisbaixo e sem esperança , ela veio ...
Não era “ o “ cheiro : era “a “cheiro . Impossível que no mundo masculino houvesse algo assim .
Fragrância fresca que vinha em sua direção , flutuava única , magnífica , espalhando sua presença por cada centímetro quadrado , preenchia recantos perdidos nas sombras , carregando no colo todos os ansiosos e desejosos , conduzia com leveza os já inebriados e desesperados por aquele cheiro ...
Certamente nascera das mãos delicadas de um alquimista , perfumista das primeiras eras que juntara pôr do sol e ocaso , lua e sol , água doce e salgada , fogo e terra molhada , tudo no mesmo frasco ...
Despertou todo desejo , anseio e volúpia que nem sabia que existiam .
Entregou-se prontamente , loucamente , indiscretamente , plenamente e sem vergonha ...
Absorveu seu cheiro para nunca mais esquece-lo .
Mas trazia junto uma maldição escondida para Ele , que seria sofrida pelos restantes de seus dias , sem trégua , sem dó , sem um só dia de sossego , a reduzir-lhe a razão a ponto de querer rouba-la : entregou-se a outro ...
Não era Dele , não estava Nele .
Cansado , queria encerrar sua busca porém ainda sentia-se vazio ...
A sensação da falta agora estava preenchida pela certeza de que estava irremediavelmente perdido ...
Acabou por escolher o perfume da simples margarida para acalentar os seus dias , dar-lhe a impressão que estava enfim completo .
A juventude passou assim como o amadurecer .
Chegou ao final de seus dias sabendo que nunca mais sentiria aquele perfume de frasco minúsculo , único , que permanecera só em sua triste memória , a lhe encher de ilusões , marcado que fora como que com ferro em brasa em seu mais profundo sentimento ...
E isto não é sobre perfumes ...
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