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Sobre coisas de tia Anastácia

  • luisdiariosegundo
  • 22 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura

Ali pelas 20h30 bati com os nós dos dedos na porta da casa elegante situada a uns 10 minutos de caminhada a partir  do centro da cidadezinha.

Havíamos marcado este encontro meio casual em um local onde trabalho como sommelier . Dizia que iria me “ revelar uns segredos “  já um tanto alterada pelas taças de vinho depositadas sobre o balcão .

A porta se abre e uma figura esbelta e esguia – bem diferente do que se imagina  – Me recebe com um sorriso maroto :

 —Entre moço , a casa é sua ...

Ameaço de tirar os sapatos mas sou veementemente impedido de assim o fazer , e vamos direto até o sofá de couro na sala elegantemente adornada com muitos  – muitos mesmo - porta retratos .

Depois de algum tempo Ela entra no assunto : Vou lhe contar como nos conhecemos , ali em mil novecentos e guaraná com rolha . Eu procurava a fazenda Água Branca , mas acabei por engano neste tal sitio do Picapau Amarelo .

O condutor da carroça Me deixou na porteira com as malas na mão e Eu fui caminhando meio que capengando até a porta de entrada da casa grande .

Já de longe ouvi a música : era um tango de Gardel . Olhei pela janela a lá estavam eles : A sinhá e o tal Lobato , ela com uma rosa vermelha na boca e ele com seus sapatos de duas cores deslizavam pela sala , onde os móveis haviam sido encostados para dar mais espaço para a dança espalhafatosa .

Esperei por mais de horas para interromper e me apresentar . Fui recebida meio que de assombro pois que não esperavam visitas , mas desde este dia acabei ficando por ali mesmo.

  Poucas coisas combinamos  – como por exemplo toda sexta feira Eu deveria “ sair pra ver a cidade “ e só voltar depois da 22h . Nunca nada Eu questionei ...

Um dia apareceu a filha mais velha dela e deixou os filhos por lá , e nem era época de férias nem nada . Era coisa de um tal de divórcio mesmo que tinha que ser resolvido .

Pobre moça chorava tanto ... E foi aí que começaram as histórias : pra fazer aquela garotada dormir não era fácil não .

Tinham medo de vagalume , de sapo , de vaca ,das galinhas ... coisa de criança da cidade .

Mas foi bom porque a bronquite parou . Nem de benzer precisava mais .

Lobato e Barnabé – já te falei dele ? hoje mora na França e dá palestra motivacional  – tinham sonhos de fazer filmes de Bang Bang ali no sítio mas pela falta de roteiros e recursos , optaram por filmar as historinhas que inventávamos , incluindo a Cuca , o Saci , Iara e o resto do time .

A sinhá sempre dava pitacos e por isso muita coisa foi cortada .

O Dr. Pedro foi menino faceiro , subia em árvore e tudo mais . Agora trata os filhos com uma severidade que dá dó , não podem nem andar descalços .

A Lúcia se casou , lembra dela ? a gente chamava de narizinho .

Nunca mais pisou por aqui – por causa do Sabugosa entende ? ele agora mexe com “ tóchico” .

A sinhá sentia muita falta ... vivia mandando cartas pra ela , que nunca respondeu....

Como a hora já ia adiantada e minha cabeça já estava meio zuada – rapaz , como fala aquela mulher ! – combinamos para outro dia a continuação da prosa . Ainda tenho que aprender o Tango .

No próximo encontro ela quer que eu lhe ensine alguns passos !

Dá-lhe Gardel !

 
 
 

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