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Sobre coisas de timidez ...

  • luisdiariosegundo
  • 2 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

A mulher invisível segue cabisbaixa e lentamente seu caminho por entre a multidão .

Pessoas passam por ela subindo e descendo a rua  imprensando seu corpo magro  hora entre elas mesmas , hora entre a parede , dando-lhe cotoveladas e resmungando alto quando ela se coloca em seus caminhos .

De início muito timidamente tentara ser educada dizendo _ “  desculpe “ mesmo quando não estava errada , e por mais que se esforçasse em ser agradável percebeu que nem assim notavam sua presença .

Quando precisava de alguma informação sobre este ou aquele endereço , qual o ônibus pegar para tal lugar , qual a linha de trem levaria onde , não poucas vezes tinha que repetir a mesma pergunta .

Ninguém a ouvia , ninguém notava sua presença e sua voz de entonação muito baixa , quase um sussurro , não se fazia ouvir ...

Crescera assim sendo a única menina , caçula da casa com o pai e mais nove irmãos homens .

Não brincara de bola , não rodara pião , não andara de bicicleta e boneca tinha uma só , feita de sabugo de milho e vestido do trapo feito da sobra de alguma camiseta rasgada .

Na escola podia até faltar sem ser notada .

Era presente não por imposição do pai , mas por ser apaixonada pelas histórias dos livros que pegava na pequena biblioteca , fascinada pelos heróis que salvavam as mocinhas e eram beijadas e amadas ao final das fábulas .

Ali entre as outras meninas ficava quietinha a ouvir sobre seus beijos , abraços e outras coisas que a faziam enrubescer , tentando imaginar a pressão certa nos lábios para quando fosse a sua vez não fazer papel de tola ...

Passaram-se dias , meses e anos ...

A timidez roubou as coisas supostamente boas em sua vida , deixando um nó com gosto amargo de solidão no fundo da garganta , e aos poucos foi se acostumando , achando tudo aquilo muito normal .

Dia destes andava distraída olhando para baixo e deu um encontrão em um rapaz corpulento ;  conforme subia o rosto ia descobrindo pequenos detalhes .

Pode ver seus sapatos marrom gastos já sem brilho , cadarço desamarrado e a calça curta amarrotada pouco acima das canelas .

A camisa pendia abotoada na casa errada , a mancha mal lavada de mostarda , a barba por fazer e as olheiras fundas  revelavam uma noite mal dormida .

Por instantes seus olhos de encontraram  e nem se sabe como ou porque não se desviaram ...

Ficou paralisada abraçando a bolsa contra o peito que arfava , e por instantes como nas histórias tudo em volta sumiu ou parou .

O ar quente abafado da cidade ganhou ares de brisa de primavera , os prédios cinza e sem vida foram se vestindo das cores do arco-íris , a cacofonia da cidade substituída por sons delicados de flauta doce  ...

Algumas pequenas borboletas surgiram não se sabem de onde , revelaram-se dançando ao redor  desafiando a ordem natural do momento .

Começaram a falar ao mesmo tempo assim meio sem jeito , pararam e iniciaram a balbuciar algumas palavras  várias vezes rindo envergonhados um do outro , até que por fim foram se afastando devagarinho cada qual para o lado oposto em que vinham vindo .

Não se apertaram as mãos , não sabem o nome um do outro , não trocaram números de telefone , não marcaram de se ver novamente .

Não fizeram nada .

Apenas a moça tímida ressurgida dá a volta pela rua de cima , retoma sua direção e  volta aos poucos para a segurança da invisibilidade ...

 
 
 

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