Sobre coisas que já não sou ...
- luisdiariosegundo
- 14 de jun. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 11 de jan.
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Vendo e revendo fotografias antigas onde estavam registradas pessoas, lugares, objetos, comidas e bebidas, dei-me conta de quão o passado é presente, e também ficou patente que muitas coisas eu não sou mais.
As fotografias não são o que vemos, na verdade representam um momento da vida de quem as fez, pequenos enigmas a serem decifrados apenas pelos autores.
Já não sou o jovem que segurava um cigarro por entre os dedos (coisa aliás que nunca deveria ter feito), nem sou o mesmo o homem que por algum tempo carregou no dedo o anel que meu pai me dera (embora eu ainda o tenha guardado esquecido em alguma gaveta).
Talvez esteja no mesmo lugar um antigo relógio de bolso que ganhei de meu tio quando ainda era adolescente.
Canto músicas antigas que foram lançamentos de cantores que já morreram, sendo eu agora não sei bem se um homem velho ou um velho homem.
Também já não sou mais tão intolerante como quando tinha 20 e poucos anos, meu topete baixou em ambos os sentidos: tornei-me um pouco mais humilde e meu cabelo está me abandonando aos poucos - talvez uma opção por conviver tão de perto com as loucuras que se passam em minha cabeça.
O corpo outrora em forma esbelta e musculosa, com o passar dos anos cedeu lugar a uma outra, agora mais arredondada e de músculos frouxos.
A pressa acabou para quase tudo, aliás até me esforço para que certas coisas aconteçam bem devagarinho mesmo, chego a procrastinar deliberadamente afazeres apenas para ter o que fazer em outras ocasiões.
Não sou mais necessitado de muitas coisas que tanto corri atrás, que teria conseguido do mesmo modo se tivesse mais paciência e fosse menos afoito.
Também não sou mais tão bobinho acreditando sempre em tudo e em todos.
Estou mais filósofo do que prático, penso e repenso de uma maneira que nunca fiz antes de agir. O tempo ensina, e às vezes com pancadas, acho que a gente aprende mais assim do que com afagos no ego.
Já fui menos viajado.
Agora tenho passaporte carimbado com quilômetros de estradas cheias de curvas, caminhos de terra que acabam em cachoeiras, horas passadas dentro de um capacete com apenas um mesmo refrão de música a tocar, imensos períodos de cérebro descansando sem pensar em nada, atento só as faixas amarelas e brancas que passam rapidamente sem parar.
Já fui mais frequentador de locais abarrotados de gente, de bares com cerveja gelada, pontos de encontro com gente esquisita, bailes dançando gafieira e músicas lentas.
Hoje sou frequentador de meu sofá que, coitado, já tem até a marca de todo tempo que passo nele: a espuma afundada que deixa claro para todos que ali é MEU lugar.
Até meu cachorro mudou de um Doberman marrom com orelhas em pé, um assassino pronto a abater qualquer coisa, para um Lhasa, todo frufru e com lacinho na cabeça.
Virei pai de pet ... Fui ouvinte e leitor de histórias e estórias, hoje sou fazedor delas na sua forma mais caipira ou mais polida e educada possível.
Fui corredor apressado atrás do tempo, mas o que me faltava, hoje sobra e em excesso.
Fui jogador de moedas em fontes cheias de águas turvas, mas sem nunca acreditar na realização de pedidos (acho que por isso nunca se concretizaram), nadador em mar alto até os pés não alcançarem o chão, fui ousado nadando pelado quando tinha mais gente por perto, fui andante em cavalo vivo (hoje só em cavalo a vapor) .
Fui campeão de tiro ao alvo, fui ao correio e colei selos, frequentador de bibliotecas com cartão atrasado. Já fui apaixonado mais do que deveria e menos do que sou agora, fui sonho de muitas antigamente e hoje, quase certeza de que sou pesadelo de alguém,
São muito mais as coisas que já fui, impossível contabilizar todas.
Superam em muito as que ainda pretendo ser, mas isso é compreensível:
Já fiz mais tempo nesta terra do que ainda tenho sobre ela ...
Um texto exemplar, capturando o tempo e a vida que flui. Muito bom.
Leitura gostosa.
Nessa vida a gente vai desacelerando aos poucos.
Texto encantador!
Muito bom...sonho realizado parabéns